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Economia Circular no Aftermarket: Estímulo à inovação!

Atualizado: 2 de fev.

O que será necessário para transformar a nossa economia descartável numa economia onde os resíduos são eliminados, os recursos circulam e a natureza é regenerada? A resposta está na economia circular, o tema da campanha "Reuse Aftermarket", que o Jornal das Oficinas lança em 2022.



Uma economia “mais circular” tem vindo a ser apresentada como um conceito operacional no caminho para a mudança de paradigma, tendo em vista enfrentar os problemas ambientais e sociais decorrentes da globalização dos mercados e do atual modelo económico baseado numa economia linear de “extração, produção e eliminação”.

A Comissão Europeia adotou o novo plano de ação de economia circular em Março de 2020. É uma das principais pedras angulares do Green Deal - Acordo Verde Europeu, a nova agenda da Europa para o crescimento sustentável. A transição da UE para uma Economia Circular reduzirá a pressão sobre os recursos naturais e criará crescimento sustentável e emprego.


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A Economia Circular fornecerá aos cidadãos produtos de alta qualidade, funcionais e seguros, eficientes e acessíveis, que durem mais tempo e sejam concebidos para a reutilização, a reparação e a reciclagem de alta qualidade. Inspirando-se nos mecanismos dos ecossistemas naturais, que gerem os recursos a longo prazo num processo contínuo de reabsorção e reciclagem, a Economia Circular promove um modelo económico reorganizado, através da coordenação dos sistemas de produção e consumo em circuitos fechados. Ultrapassa o âmbito e foco estrito das ações de gestão de resíduos e de reciclagem, visando uma ação mais ampla, desde do redesenho de processos, produtos e novos modelos de negócio até à otimização da utilização de recursos. É um conceito estratégico que assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia, substituindo o conceito de fim-de-vida da economia linear, por novos fluxos circulares de reutilização, restauração e renovação, num processo integrado.


A Economia Circular é uma nova forma de pensar o nosso futuro e como nos relacionamos com o planeta. O destino final de um material deixa de ser uma questão de gestão de resíduos, mas parte do processo de design de produtos e sistemas. Assim podemos eliminar o próprio conceito de lixo: cada material é aproveitado em fluxos cíclicos, o que possibilita sua trajetória de produto a produto, preservando e transmitindo seu valor.


Esta transição, gradual mas irreversível, em direção a um sistema económico sustentável, constitui um elemento indispensável da nova estratégia industrial da UE. Um estudo recente estimou que a aplicação dos princípios da economia circular à economia da UE pode gerar um aumento adicional de 0,5 % do PIB da União até 2030, criando cerca de 700.000 novos postos de trabalho. Há igualmente vantagens evidentes para as empresas, dado que, na UE, as matérias-primas representam, em média, cerca de 40 % dos custos da produção industrial ou artesanal, os sistemas em circuito fechado podem permitir aumentar a rendibilidade das empresas e protegê-las das flutuações dos preços dos recursos.


A economia circular baseada no mercado único e no potencial das tecnologias digitais pode reforçar a base industrial da UE e promover a criação de empresas e o empreendedorismo entre as PME. A adoção de modelos inovadores assentes numa relação mais próxima com os clientes, na personalização em massa e na economia de partilha e colaborativa, apoiados por tecnologias digitais como a Internet das coisas, os megadados e a inteligência artificial, permitirá acelerar não só a circularidade mas também a desaterialização da economia, tornando a Europa menos dependente de matérias-primas primárias.


ESTRATÉGIA DE FUTURO

O plano de ação da Comissão Europeia para a economia circular estabelece uma estratégia orientada para o futuro, no intuito de criar uma Europa mais limpa e mais competitiva em associação com os agentes económicos, os consumidores, os cidadãos e as organizações da sociedade civil. Visa acelerar a mudança transformadora requerida pelo Pacto Ecológico Europeu, tendo por base as ações desenvolvidas no domínio da economia circular desde 2015.


O presente plano inclui um conjunto de iniciativas relacionadas entre si por forma a estabelecer um quadro estratégico sólido e coerente, em que os produtos, serviços e modelos de negócio sustentáveis sejam a norma e haja uma transformação dos padrões de consumo no sentido da prevenção de resíduos. O desenvolvimento deste quadro estratégico será gradual, sendo dada prioridade às principais cadeias de valor dos produtos.


Serão tomadas novas medidas para reduzir a produção de resíduos e garantir o bom funcionamento do mercado interno da UE para as matérias-primas secundárias de alta qualidade. A capacidade da UE se responsabilizar pelos seus resíduos será igualmente reforçada.

A Europa não alcançará uma mudança transformadora se atuar isoladamente. A nível mundial, a UE continuará a liderar o caminho rumo a uma economia circular e a utilizar a sua influência, saber fazer e recursos financeiros para concretizar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030. O plano visa também garantir que a economia circular esteja ao serviço das pessoas, das regiões e das cidades, contribua integralmente para a neutralidade climática e aproveite o potencial da investigação, da inovação e da digitalização. Por último, o plano contempla o desenvolvimento de um quadro de acompanhamento robusto que contribua para medir o bem-estar para além do PIB.


CONCEBER PRODUTOS SUSTENTÁVEIS

Até 80 % do impacto ambiental dos produtos é determinado na fase da conceção. Contudo, o padrão «extrair, fabricar, utilizar e deitar fora», próprio da economia linear, não oferece incentivos suficientes aos produtores para que apostem na circularidade dos produtos.


Muitos produtos avariam de forma demasiado rápida e não podem ser facilmente reutiliza- dos, reparados ou reciclados, sendo um grande número fabricado para utilização única. A Diretiva Conceção Ecológica vem precisamente legislar no sentido da indústria adequar os produtos a uma economia com impacto neutro no clima, eficiente em termos de recursos e de natureza circular, reduzir a produção de resíduos, bem como garantir que os resultados obtidos pelas empresas que estão na vanguarda da sustentabilidade passam a ser a norma.

No âmbito da Economia Circular, a Comissão estabelece princípios de sustentabilidade e outros meios adequados para regulamentar as seguintes matérias:

l Melhorar a durabilidade, a possibilidade de reutilização, a capacidade de atualização e a reparabilidade dos produtos, reduzir a presença de produtos químicos perigosos e aumentar a eficiência energética dos produtos e a sua eficiência na utilização dos recursos;

l Aumentar o teor de materiais reciclados nos produtos, garantindo simultaneamente o seu desempenho e segurança;

l Estimular a remanufactura e a reciclagem de alta qualidade;

l Reduzir as pegadas ecológicas e de carbono;

l Restringir a utilização única e combater a obsolescência prematura;

l Proibir a destruição de bens duradouros não comercializados;

l Incentivar o modelo de negócio «produto como um serviço» ou outros modelos em que os produtores mantêm a propriedade dos produtos ou a responsabilidade pelo desempenho dos mesmos ao longo do ciclo de vida;

l Mobilizar o potencial da digitalização das informações sobre os produtos, incluindo soluções como etiquetagem e marcas de água digitais;

l Recompensar os produtos com base no seu desempenho diferenciado em termos de sustentabilidade, nomeadamente por meio do estabelecimento de uma relação entre níveis de desempenho elevados e incentivos.


DESDE AS MATÉRIAS-PRIMAS ATÉ À PRESERVAÇÃO DO VALOR

O sistema circular e o sistema linear diferem um do outro na forma como o valor é criado ou mantido. Numa economia linear, as matérias-primas são recolhidas, depois transformadas em produtos que são utilizados até serem finalmente descartados como resíduos. O valor é criado neste sistema económico através da produção e venda do maior número possível de produtos.




Uma economia circular segue a abordagem dos 3R: reduzir, reutilizar e reciclar. A utilização de recursos é minimizada (reduzir). A reutilização de produtos e peças é maximizada (reutilização). E por último, mas não menos importante, as matérias-primas são reutilizadas (recicladas) a um nível elevado.

A mobilidade pode servir como um bom exemplo. A partilha de carros significa que menos pessoas têm de comprar os seus próprios carros. Isto reduz a utilização de matérias primas (reduzir). Se o motor de um carro estiver partido, pode ser reparado ou o chassis e o interior do carro podem ser utilizados para fazer ou renovar outro carro (reutilização). Quando estas peças já não podem ser reutilizadas, o metal, o tecido e o plástico das peças podem ser derretidos para serem utilizadas num carro novo (reciclagem). Os produtos também podem ser convertidos em serviços, tais como Spotify que vende licenças de audição em vez de CDs. Neste sistema, o valor é criado concentrando-se na preservação do valor.

Os modelos empresariais são também utilizados numa economia circular, com maior ênfase nos serviços do que nos produtos. Um exemplo de um modelo que facilita a transição para a economia circular é uma combinação produto-serviço (Product- -As-A-Service System), que é vista como um modelo para integrar produtos e serviços. Um exemplo generalizado de uma combinação produto-serviço é o sistema de impressoras Xerox, no qual as empresas recebem uma impressora gratuitamente e pagam por cópia. Este sistema enquadra-se bem na economia circular, porque como fabricante, a Xerox tem interesse em assegurar que a impressora dure muito tempo, podendo repará-la e atualizá-la. No sistema de venda linear, o fabricante beneficia frequentemente se o produto se avariar rapidamente para que possa vender um novo produto.





ECONOMIA CIRCULAR NO AFTERMARKET

O fator mais importante para os benefícios económicos da economia circular é a mudança e melhor compreensão do lado da procura. A forma como as empresas lidam com os seus clientes e o papel que desempenham ao longo das suas vidas acaba por conduzir a uma menor utilização de matérias-primas, a uma menor produção de resíduos e a mudanças na produção.

O aftermarket em geral e as oficinas em particular, têm um papel fundamental neste processo de transformação, quer na utilização de materiais mais sustentáveis, quer na mensagem positiva que podem transmitir aos seus clientes, incentivando-os a serem mais conscienciosos na escolha dos componentes que instalam nas suas viaturas.

Esta transição, gradual mas irreversível, em direção a um sistema económico sustentável, constitui um elemento indispensável da nova estratégia de gestão das empresas aftermarket que querem estar na linha da frente da circularidade mas também da desmaterialização da economia, tornando o setor menos dependente de matérias-primas primárias. A transição para a economia circular será sistémica, profunda e transformadora para todo o setor aftermarket, exigindo o alinhamento e cooperação por parte de todas as partes interessadas a todos os níveis – fabricantes, distribuidores, retalhistas, oficinas e consumidor final.


Embora 62% das empresas do setor automóvel já tenham a sustentabilidade como prioridade estratégica, segundo um estudo realizado pela Capgemini Research Institute, ainda falta um longo caminho até à integração completa do conceito Economia Empresarial em todo o universo empresarial.

Com um valor total de 4,7 mil milhões de euros de peças sobressalentes reconstruídas vendidas pelos fornecedores em 2020, o mercado pós-venda automóvel já está a contribuir substancialmente para os objetivos de economia circular propostos pela Comissão Europeia no seu Green Deal. As emissões evitadas com a comercialização destas peças remanufacturadas, considerando o material retido durante o processo de refabricação, foram mais de 800 kt CO2 em 2020, uma quantidade igual às emissões anuais de carbono de 120.000 cidadãos da EU.


Os fabricantes e distribuidores do setor automóvel estão a trabalhar em conjunto na transformação do mercado pós-venda num negócio sustentável de reparação e manutenção.

O facto de capacitar os consumidores e de lhes dar a possibilidade de reduzir os custos constitui um elemento central do quadro estratégico para a sustentabilidade dos produtos. Tendo em vista reforçar a participação dos consumidores na economia circular, fabricantes e distribuidores devem adotar medidas que permitam obter informações fiáveis e pertinentes sobre os produtos nos pontos de venda, incluindo no que respeita à sua vida útil e à disponibilidade de serviços de reparação, peças sobressalentes e manuais de reparação.



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