Buscar
  • Jornal das Oficinas

Falta de coerência!

Com o anúncio oficial da proibição da venda de veículos novos com motores de combustão, já a partir de 2035, A Comissão Europeia revela uma falta de coerência na aplicação da economia circular ao setor automóvel.



A pressão no sentido de eliminar centenas de milhões de veículos europeus num curto período de tempo e, ao mesmo tempo, o incentivo à reparação como objetivo prioritário no ambiente da UE são incongruentes. A pressão atual para a renovação da frota é uma via traumática para a produção de resíduos. A verdadeira sustentabilidade na mobilidade privada seria promover tecnologia para transformar o que já existe, garantindo ao mesmo tempo a segurança rodoviária. Salienta-se a falta de ligação entre o estímulo da economia circular no ambiente geral e o tratamento que está a ser dado à indústria automóvel, através de regulamentos que promovem a renovação total do parque automóvel e o envio de centenas de milhões de veículos para o ferro-velho.

Se a Economia Circular não continuar a garantir a durabilidade dos veículos, com base na sua reparação, estamos perante uma nova prática de greenwashing (prática de marketing verde destinada a criar uma imagem ilusória de responsabilidade ecológica). A iniciativa da UE “Consumo Sustentável de Bens: Promoção da Reparação, Transformação e Reutilização”, é o primeiro passo para uma nova diretiva que visa promover uma utilização mais sustentável dos bens ao longo da sua vida útil. Entre os objetivos do projeto da legislação está também o de encorajar os consumidores a fazerem escolhas sustentáveis, incluindo a reparação ou transformação de bens em vez da sua substituição, no quadro do estímulo à economia circular, uma das prioridades da União Europeia. É reconhecido que o sector tem vindo a realizar a importante tarefa de reparação e manutenção de veículos desde há um século, o que torna os automóveis mais duráveis e fiáveis, salvaguardando ao mesmo tempo a segurança rodoviária.


A UE e os seus estados membros estão a fazer um grande esforço para estimular a economia circular; contudo, os consumidores europeus estão sob enorme pressão para acelerar a mudança do parque automóvel. As associações do setor consideram que não é lógico que haja pressão para eliminar centenas de milhões de veículos europeus num curto espaço de tempo, ao mesmo tempo que existe um desejo de estimular a reparação e a luta contra a obsolescência planeada. Atualmente, parece não haver outra forma de avançar no sector automóvel senão encorajar o lançamento no mercado de novos veículos movidos principalmente por tecnologias baseadas na eletricidade, para substituir a enorme frota euro- peia de veículos de combustão destinados ao desmantelamento, uma rota traumática para efeitos da produção de resíduos. Alternativamente, outras possibilidades poderiam ter sido consideradas como um passo intermédio no sentido de fórmulas de propulsão sustentáveis.


EXISTEM ATUALMENTE MAIS DE 1,3 MIL MILHÕES DE VEÍCULOS COM MOTORES DE COMBUSTÃO EM USO EM TODO O MUNDO, O QUE REFLETE O FACTO DE QUE A SUBSTITUIÇÃO DE TODA A FROTA MUNDIAL POR OUTRO TIPO DE PROPULSÃO SERÁ MUITO LENTA E GRADUAL





Os organismos europeus deveriam promover o conhecido RETROFIT, ou a possibilidade dos consumidores converterem veículos convencionais, quer a combustíveis fósseis ou sintéticos menos poluentes (GPL, GNV, E-FUEL ou outras possibilidades), quer adaptando novas tecnologias que possam surgir do trabalho de investigação dos fabricantes, o que poderia prolongar a vida útil de muitos veículos atuais.

Manter e promover linhas de investigação para minimizar os efeitos poluentes dos veículos de combustão. Os próprios fabricantes de veículos e os seus fornecedores têm defendido que este era um caminho possível e viável para avançar. A Europa precisa de harmonizar o quadro regulamentar dos estados membros sobre a conversão para a propulsão elétrica dos veículos convencionais. É inaceitável que alguns países, como a França, estejam a trabalhar nesta questão, enquanto outros não têm qualquer abordagem.

Num ambiente de economia circular, a reparação e manutenção do veículo ao longo da sua vida útil deve ser considerada. Esta opção é particularmente relevante para a atual nova frota, cuja transformação futura permitirá o prolongamento do seu ciclo de vida, a reparação e reutilização e a minimização de resíduos.

Em relação aos veículos elétricos e suas baterias, o mercado está a ser forçado a sofrer uma trans- formação sem sequer ter consciência de que a tecnologia atual dos veículos elétricos é suscetível de ser totalmente transformada num curto espaço de tempo. Milhões de veículos acabarão novamente no monte de sucata. Por isso, as Associações do setor apelam às autoridades europeias:

l Coerência nas abordagens da União Europeia e na visão que impulsiona os projetos de regulamentação da economia circular também para o sector automóvel.


l Coerência para que os regulamentos relacionados com a economia circular e, especificamente, com a reparação de veículos, estejam em conformidade com a extensa regulamentação que afeta o automóvel em aspetos específicos como, por exemplo:

l Dar prioridade à reparação, manutenção e transformação em detrimento da substituição sempre que possível em termos de eficiência ambiental e económica.

l Acesso a informação técnica e ferramentas técnicas, tanto físicas como digitais, necessárias para a reparação.


l Acesso a peças sobressalentes e a manutenção da sua disponibilidade durante longos períodos de tempo.


MOTOR DE COMBUSTÃO DESEMPENHA PAPEL DE LIDERANÇA


Para se atingir o objetivo de descarbonização total, é necessário trabalhar em todas as tecnologias disponíveis, incluindo o motor de combustão interna, uma vez que ainda é atualmente o eixo central da mobilidade em todo o mundo. Por conseguinte, não devemos renegá-lo, mas sim continuar a investir na redução das suas emissões. Assim, para se alcançar uma mobilidade sustentável no futuro, a neutralidade tecnológica envolve, entre outros, baterias, híbridos, células de combustível e o motor de combustão, que representará 67% de todos os veículos novos vendidos em 2030. Portanto, este tipo de motorização não deve ser negligenciado, dado que existem atualmente mais de 1,3 mil milhões de veículos com motores de combustão em uso em todo o mundo, o que reflete o facto de que a substituição de toda a frota mundial por outro tipo de propulsão será muito lenta e gradual.

Neste sentido, destacamos a importância dos combustíveis sintéticos, os chamados eFuels, como alternativa para tornar os veículos de combustão interna neutros em carbono. O processo de transição para a neutralidade tecnológica vai levar algum tempo, mas o objetivo é torná-lo realidade o mais rapidamente possível. Por seu lado, ao ajudar a alcançar uma mobilidade totalmente sustentável no futuro, há aqueles que, seguindo a abordagem de neutralidade tecnológica, naturalmente, apostaram um pouco mais fortemente no hidrogénio. Estima-se que, até 2030, 20% de todos os novos veículos elétricos serão movidos a células de combustível, especialmente em termos de grandes camiões pesados dedicados ao transporte de mercadorias de longa distância.






SUSTENTABILIDADE E ECONOMIA CIRCULAR MUDAM PÓS-VENDA


Com a atual escassez de matérias-primas, bem como o aumento dos custos dos materiais, o recondicionamento e reparação de componentes tornar-se-á mais relevante para a reparação e manutenção de veículos. Os fornecedores e distribuidores do setor automóvel estão a trabalhar em conjunto na transformação do mercado pós-venda num negócio sustentável de reparação e manutenção. Seguindo a visão de uma indústria automóvel descarbonizada até 2050, tal como estabelecido pelo Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), os fornecedores e distribuidores de peças aftermarket estão empenhados em definir critérios de sustentabilidade no mercado pós-venda, com propostas num esquema de classificação e revisões anuais de desempenho.


Os fornecedores e distribuidores estão convencidos de que um sector pós-venda sustentável é um pré-requisito, mas muito mais será necessário fazer para atrair mão-de-obra qualificada no sector. O aftermarket automóvel é uma parte essencial da indústria automóvel e um importante contribuinte para os objetivos de sustentabilidade, mas estes devem ser complementados por um quadro regulamentar justo e estável que apoie uma escolha aberta aos consumidores no que diz respeito à utilização e manutenção dos seus veículos. A eletrificação da propulsão não é a única solução para reduzir a pegada de carbono a zero. É essencial considerar o impacto global de cada tecnologia de propulsão ao longo do seu ciclo de vida, desde a extração de matérias-primas à sua reutilização ou segunda vida e reciclagem final.


COMO A INDÚSTRIA CONTRIBUI PARA A MOBILIDADE SUSTENTÁVEL?


Reduzir o peso dos veículos é uma das linhas de trabalho para avançar no sentido da mobilidade sustentável. A redução do peso dos veículos permite reduzir as emissões entre 20 e 25%, dado que um peso mais leve dos veículos resulta num menor consumo de combustível. E esta é uma linha de trabalho para uma mobilidade sustentável que muitos fabricantes de peças aftermarket estão a seguir, como é o caso da Brembo, que já produz discos de travão em carbocerâmica, que pesa 50% menos do que um disco de ferro fundido, o que permite reduzir as emissões de CO2 em cerca de 5 g/km. Da mesma forma, um disco de travão composto, em oposição aos discos integrais, reduz o peso total do disco em aproximadamente 15%. Esta redução de peso tem um impacto significativo no consumo de combustível, desempenho e manuseamento do veículo.


PARA SE ATINGIR O OBJETIVO DE DESCARBONIZAÇÃO TOTAL, É NECESSÁRIO TRABALHAR EM TODAS AS TECNOLOGIAS DISPONÍVEIS, INCLUINDO O MOTOR DE COMBUSTÃO INTERNA, UMA VEZ QUE AINDA É ATUALMENTE O EIXO CENTRAL DA MOBILIDADE EM TODO O MUNDO

Para a Continental, a mobilidade sustentável é também uma prioridade. A este respeito, a Continental impôs-se três desafios principais para conseguir uma condução sem emissões: eliminar as emissões na estrada, promover veículos com emissões zero de escape (ZTEV) e eliminar quaisquer outras emissões de veículos não relacionadas com a combustão. Os pneus são direta ou indiretamente responsáveis por 21% do consumo de combustível e das emissões, e graças aos esforços de I&D dos fabricantes, foram feitas melhorias em termos de resistência ao rolamento, indicada no rótulo europeu, em direção à categoria A, que é a classificação de eficiência mais elevada, permitindo que as marcas mais avançadas em qualidade ofereçam menos consumo e pneus mais eficientes. Também são dignos de nota os avanços na sustentabilidade dos materiais utilizados na produção de pneus. Por este motivo, a Continental começou a utilizar material de garrafas PET recicladas na produção de pneus em 2022.



A MANUTENÇÃO PREVENTIVA NA PROTEÇÃO DO AMBIENTE


Respeitando o direito de cada oficina a escolher as peças sobressalentes com que trabalha, a utilização de peças fabricadas com enfoque na mobilidade sustentável contribui para o ambiente. Por exemplo, em termos de rolamentos, existem modelos que reduzem as emissões de CO2 através da redução do atrito. Por outro lado, uma vela de ignição que gera uma ignição eficiente assegura uma alta potência e baixas emissões. O papel dos mecânicos para a sustentabilidade ambiental é essencial, pois são eles os prescritores quando se trata de recomendar uma ou outra peça sobressalente aos proprietários de veículos.


Sobre este ponto, é importante que os mecânicos estejam conscientes dos avanços dos fabricantes no desenvolvimento dos seus produtos, avanços na investigação, inovação, etc., uma vez que os seus conselhos, as suas recomendações, são fundamentais. De salientar que os clientes que optarem por uma peça de substituição com um maior enfoque na sustentabilidade ambiental terão benefícios adicionais, tais como poupança no consumo de combustível, melhor desempenho e segurança na condução.


INDÚSTRIA É A CHAVE PARA A DESCARBONIZAÇÃO


É necessário empreender o processo de descarbonização de forma progressiva e ordenada, com um plano específico de medidas que tenham em conta fatores ambientais, económicos e sociais, permitindo ao mesmo tempo continuar a garantir a mobilidade dos cidadãos, nas suas diferentes modalidades. A indústria de componentes automóveis é um dos sectores que mais investe em Inovação e Desenvolvimento (I&D), o que significa que os veículos são cada vez mais seguros e mais eficientes e fabricados de uma forma mais sustentável.


O caminho para a descarbonização ao longo do ciclo de vida do veículo deve ser feito de forma progressiva e ordenada, com um plano específico de medidas que tenham em conta fatores ambientais, económicos e sociais. E, além disso, deve permitir que a mobilidade dos cidadãos continue a ser garantida, nas suas diferentes modalidades.


NEUTRALIDADE TECNOLÓGICA É FUNDAMENTAL

A neutralidade tecnológica pode ser a chave para alcançar o objetivo da Comissão Europeia de descarbonizar o sistema de mobilidade europeu até 2050. Para isso é importante manter uma mente aberta no que diz respeito a focar não apenas uma ou duas tecnologias de propulsão para o futuro da mobilidade sustentável, mas em toda a diversidade existente: eletrificação, híbridos plug-in, células de combustível de hidrogénio, motores de combustão interna, combustíveis sintéticos... Em termos de mobilidade, estamos a consumir cada vez mais energia, pelo que é importante que o que usamos para nos deslocarmos seja descarbonizado. Para cumprir as metas de 2050, teremos de reduzir as emissões numa base diária.


59 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo