Buscar
  • Jornal das Oficinas

Na era da sustentabilidade

Com preocupações crescentes devido às alterações climáticas e ambientais, a sustentabilidade tornou-se uma prioridade estratégica para a indústria automóvel. Governos, consumidores e investidores estão agora a pressionar as organizações automóveis para mudar as suas formas de trabalho e produtos.




Isto terá implicações de grande alcance para a indústria automóvel, que apesar de estar a fazer progressos substanciais ainda necessita de intensificar o seu esforços de sustentabilidade. Algumas áreas como a I&D e o fabrico, que estão mais perto do núcleo de competências da indústria recebem maior atenção, mas não há um enfoque consistente na sustentabilidade ao longo de toda a cadeia de valor. Por exemplo, vendas sustentáveis, marketing, pós-venda e serviços de mobilidade, são desenvolvidos apenas por uma minoria.


São necessários cerca de 50 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos, para que a indústria automóvel consiga cumprir os seus objetivos de sustentabilidade, para além do investimento atual em veículos elétricos e autónomos. A economia circular tem potencial para oferecer grandes benefícios económicos e produzir veículos elétricos mais sustentáveis.


No entanto, atualmente, apenas 32% da cadeia de abastecimento dos fabricantes automóvel contribui para a economia circular. É pois necessário que os executivos empresariais se responsabilizem pela sustentabilidade e invistam numa gestão robusta, desenvolvendo iniciativas de sustentabilidade por toda a cadeia de valor automóvel.

Durante as últimas duas décadas, a indústria automóvel tem estado sob considerável pressão dos governos e sociedade para perseguir um modelo de crescimento mais sustentável. Isto reflete o impacto significativo que tem sobre o ambiente. O transporte rodoviário é responsável por 18% das emissões globais de CO2.


A DEGRADAÇÃO DOS ECOSSISTEMAS NATURAIS

A maioria das minas na China, de grafite natural utilizada nos veículos elétricos, devido à elevada procura, juntamente com regulamentos ambientais laxistas, levaram a falhas nas culturas, poluição do solo, contaminação da água e a degradação ambiental em grande escala. Resíduos não biodegradáveis resultantes dos Veículos em Fim de Vida, resultaram num considerável aumento dos aterros sanitários, degradação dos solos e poluição da água.


Só entre Janeiro e Junho de 2020, os EUA, Europa e Japão exportaram 3,1 milhões de toneladas de resíduos de plástico para países em desenvolvimento, principalmente na Ásia.

Uma parte substancial destes era proveniente de veículos em fim de vida.

A produção de veículos consome muita energia, água e recursos, aumentando a pegada de carbono. A indústria, em resposta, tem estado a trabalhar na abordagem de muitas destas preocupações. Por exemplo, entre 2000 e 2015, os fabricantes de automóveis da UE estavam à frente dos objetivos de redução da pegada de carbono estabelecidos pelos reguladores, tendo alcançado as metas de CO2 de cerca de 120 g/km contra um objetivo de 130 g/ km. No entanto, após 2015, as emissões de carbono começaram a aumentar, devido em grande parte ao crescimento das vendas de SUV’s. Ao mesmo tempo, o crescimento das preocupações ambientais significaram uma maior pressão por parte de uma variedade de grupos de interessados:


Reguladores - A nível mundial, os reguladores estão a impor mais medidas rigorosas e abrangentes para reduzir o impacto ambiental dos veículos. Um número crescente das cidades estão a restringir a entrada de veículos com emissões elevadas.

Grupos de interesse público - A nível mundial, há uma crescente consciência e preocupação com o impacto nocivo das atividades humanas sobre o ambiente. Isto, combinado com a elevada quota do sector dos transportes no total das emissões, tem levado que a indústria esteja sob intensa pressão e escrutínio de grupos ambientalistas e de interesse público, e da sociedade em geral, para tomar medidas ativas para reduzir as emissões. Isto é reflexo da procura de veículos elétricos por parte dos consumidores.


Espera-se que, até 2030, os veículos elétricos tenham um crescimento global de vendas de 23 milhões de unidades e circulem nesse ano 130 milhões de veículos elétricos na estradas europeias.

Para compreender a posição da indústria automóvel hoje, em termos dos seus esforços de sustentabilidade, é necessário saber o que os fabricantes de equipamento original automóvel (OEMs) e os seus fornecedores estão a fazer, para garantir que toda a a cadeia de valor automóvel é sustentável. A sustentabilidade na indústria automóvel envolve uma visão abrangente do planeta e do ser humano, operações, processos, produtos e serviços.






Como mostra a Figura 1, a Capgemini Research Institute, identificou 14 elementos que a indústria está a desenvolver no campo da sustentabilidade. Estes vão desde “I&D sustentável e desenvolvimento de produtos” a “Política de trabalho justo” e abrangem a cadeia de valor automóvel, desde I&D a Serviços de Mobilidade.


1. I&D sustentável - envolve a conceção de produtos para reduzir o impacto ambiental e otimizar a utilização dos recursos naturais, assegurando a sua reciclabilidade. 2. A sustentabilidade dos produtos - envolve a mudança para veículos com baixo consumo de combustível ou elétricos e componentes biodegradáveis. 3. A cadeia de abastecimento sustentável - inclui a adoção de operações de logística ambientalmente conscientes, distribuição, armazenagem e gestão de inventários, etc. 4. O aprovisionamento ambientalmente responsável de metais, materiais e produtos - assegura a exploração mineira, a extração e produção são implementadas com efeitos mínimos para o ambiente, mitigando impacto a longo prazo. 5. O devido cuidado na aquisição de todos os materiais e produtos - implica assegurar que todos os processos e os procedimentos são compatíveis com as orientações ambientais e são verificados de forma independente. 6. O fabrico sustentável - envolve a implementação de processos de manutenção, qualidade e produção para reduzir os resíduos e melhorar a reciclabilidade e reutilização dos materiais. 7. A reciclagem de resíduos e a fácil devolução para eliminação em fim de vida - implica que seja dado ao consumidor opções para devolver os seus veículos e peças para eliminação responsável. 8. A aquisição de energia sustentável - inclui atividades como a construção ou o aluguer de bens energéticos. 9. As vendas, marketing e sustentabilidade pós-venda - incluem iniciativas como a reconstrução e recondicionamento para melhorar a eficiência dos modelos mais antigos, renovando componentes ou veículos antigos.

10. A mobilidade e serviços digitais - incluem o incentivo à partilha de viagens, modelos de subscrição, e serviços conetados. 11. Controlo das emissões e melhoria da segurança dos veículos - assegura que as emissões ao longo da vida útil sejam contabilizadas durante quaisquer iniciativas de sustentabilidade. 12. Economia circular - é um sistema industrial ou económico que maximiza a utilização de recursos ao ser restaurativo e regenerativo pela conceção e intenção. Favorece a reutilização de materiais, ao contrário do fabrico tradicional de “comprar-utilizar-deitar fora”. 13. Políticas de trabalho justo - incluem a liberdade de associação e sindicalização, a segurança no trabalho e não ao trabalho infantil. 14. Sustentabilidade em IT - inclui o consumo de energia em centros de dados.





SUSTENTABILIDADE É PRIORIDADE ESTRATÉGICA

Embora a sustentabilidade tenha estado na agenda nas organizações do setor automóvel há já algum tempo, hoje a urgência e importância é muito maior, como refere o responsável da sustentabilidade de um grande construtor: “Reafirmámos recentemente o nosso foco sobre a estratégia de sustentabilidade a nível empresarial em três áreas-chave: ação climática, economia circular e ética e negócio responsável. É um plano a longo prazo que visa assegurar a sustentabilidade nas nossas operações e trabalhar com a nossa rede de fornecimento para tornar toda a nossa cadeia de valor sustentável”.


A sustentabilidade desempenha agora um papel fundamental nas prioridades dos grandes construtores automóveis. De acordo com o estudo, os dois maiores impulsionadores da sustentabilidade automóvel são “compromisso de ser uma organização responsável” e “responder às expectativas dos consumidores em torno da sustentabilidade”.


BONS EXEMPLOS DE SUSTENTABILIDADE

I&D E ENGENHARIA O Groupe PSA consolidou o seu esforço em I&D a duas plataformas, concebidas para limitar emissões de CO2 por redução de peso e a melhoria aerodinâmica. A Volkswagen utiliza matérias renováveis, tais como as fibras naturais, linho, algodão, madeira, celulose e cânhamo para produzir componentes, sempre que possível.

CADEIA DE ABASTECIMENTO A Scania criou um consórcio para encorajar a implantação de bio-gás de resíduos para abastecer camiões. Irá construir uma rede de estações de abastecimento de bio-gás através das principais rotas comerciais na Europa.

FABRICO E OPERAÇÕES A Yamaha Motors alcançou zero resíduos, com o reaproveitamento de todos os resíduos utilizando reciclagem térmica para criar materiais para serem utilizado no fabrico de cimento e estradas. A General Motors abastece a sua fábrica de veículos SUV, no Texas, com energia eólica cem por cento limpa

SERVIÇOS DE MOBILIDADE E UTILIZAÇÃO DE VEÍCULOS A Daimler adquiriu a plataforma Moovel Mobility-as-a-service, que torna possível comprar e pagar para andar em transportes públicos nas cidades alemãs e também oferece aos utilizadores acesso a outros opções de mobilidade como o carsharing, e alugueres de bicicletas.




22 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo