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  • Jornal das Oficinas

Transformação profunda e transformadora

A transição para a economia circular será sistémica, profunda e transformadora. Por vezes, gerará perturbações, pelo que terá de ser equitativa, exigindo alinhamento e cooperação por parte de todas as partes interessadas a todos os níveis - nacional, regional, local e internacional




Economia Circular é um conceito estratégico que assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. Substituindo o conceito de fim-de-vida da economia linear, por novos fluxos circulares de reutilização, restauração e renovação, num processo integrado. O fator mais importante para os benefícios económicos da economia circular é a mudança e melhor compreensão do lado da procura. A forma como as empresas lidam com os seus clientes e o papel que desempenham ao longo das suas vidas acaba por conduzir a uma menor utilização de matérias-primas, a uma menor produção de resíduos e a mudanças na produção.

O aftermarket em geral e as oficinas em particular, têm um papel fundamental neste processo de transformação, quer na utilização de materiais mas sustentáveis, quer na mensagem positiva que podem transmitir aos seus clientes, incentivando-os a serem mais conscienciosos na escolha dos componentes que instalam nas suas viaturas. Esta transição, gradual mas irreversível, em direção a um sistema económico sustentável, constitui um elemento indispensável da nova estratégia de gestão das empresas aftermarket que querem estar na linha da frente da circularidade mas também da desmaterialização da economia, tornando o setor menos dependente de matérias-primas primárias.

EFEITO POSITIVO NA CRIAÇÃO DE EMPREGO

Entre 2016 e 2020, o número de postos de trabalho na UE associados à economia circular cresceu 5 %, atingindo cerca de 4 milhões. Prevê-se que a circularidade tenha um efeito líquido positivo na criação de emprego, desde que os trabalhadores adquiram as competências requeridas pela transição ecológica. O conceito circular promove riqueza e geração de emprego no contexto de restrições de recursos. Numa economia circular, o trabalho é mais valorizado do que as matérias-primas. Como resultado, o emprego irá crescer. Estes empregos irão expandir-se para a reciclagem intensiva de mão-de-obra e reparações de alta qualidade; em- pregos no sector da logística através da retoma de produtos locais; novas empresas através da inovação, economia de serviços e novos modelos de negócio.


Com um valor total de 4,7 mil milhões de euros de peças sobressalentes reconstruídas vendidas pelos fornecedores em 2020, o mercado pós-venda automóvel já está a contribuir substancialmente para os objetivos de economia circular propostos pela Comissão Europeia no seu Green Deal. As emissões evitadas com a comercialização de peças reconstruídas, considerando o material retido durante o processo de refabricação, foram mais de 800 kt CO2 em 2020, uma quantidade igual às emissões anuais de carbono de 120.000 cidadãos da EU.





Os fornecedores e distribuidores do setor automóvel estão a trabalhar em conjunto na transformação do mercado pós-venda num negócio sustentável de reparação e manutenção. A economia circular fornecerá aos consumidores produtos de alta qualidade, funcionais e seguros, eficientes e acessíveis, que durem mais tempo e sejam concebidos para a reutilização, a reparação e a reciclagem de alta qualidade.

Inspirando-se nos mecanismos dos ecossistemas naturais, que gerem os recursos a longo prazo num processo contínuo de reabsorção e reciclagem, a Economia Circular promove um modelo económico reorganizado, através da coordenação dos sistemas de produção e consumo em circuitos fechados. Uma economia “mais circular” é o caminho para a mudança de paradigma, tendo em vista enfrentar os problemas ambientais e sociais decorrentes da globalização dos mercados e do atual modelo económico baseado numa economia linear de “extração, produção e eliminação”. Na prática, a economia circular implica a redução do desperdício ou dos resíduos ao mínimo. Quando um produto chega ao fim do seu ciclo de vida, os seus materiais são mantidos dentro da economia sempre que possível, podendo ser utilizados uma e outra vez, o que permite assim criar mais valor.

POLÍTICA DE RECUPERAÇÃO

O Pacto Ecológico Europeu na Comissão Europeia tem como objetivo atingir a neutralidade carbónica em 2050, assim como em reduzir as emissões de CO2 em, pelo menos, 55% até 2030. Ao contrário do que muitos acreditavam, a pandemia Covid-19 veio acelerar a implementação deste Pacto Ecológico, tornando-o mesmo na base das políticas de recuperação (conhecida por “bazuca” em Portugal – PRR Plano de Recuperação e Resiliência).



A circularidade tem várias vantagens para a economia, porque o custo das matérias-primas irá diminuir substancialmente, ao mesmo tempo que promove o emprego e a inovação. Em teoria, na economia circular, 100% de todas as matérias-primas são totalmente recicladas, e não são necessárias novas matérias-primas virgens. Um princípio importante da economia circular é o de dissociar o crescimento económico do consumo de matérias primas. Como resultado, a economia não é prejudicada pela escassez de matérias-primas para crescer.

De acordo com cálculos da economia circular, 62% das emissões globais de gases com efeito de estufa provêm da extração, processamento e produção de bens para satisfazer as necessidades da sociedade; apenas 38% são emitidos no fornecimento e utilização de produtos e serviços. As emissões da indústria na União Europeia diminuiriam 56% em 2050 se a economia circular se tornasse uma realidade. A redução das emissões medidas à escala global será ainda maior, porque a União Europeia deixará de importar matérias-primas primárias de países fora da União, o que também reduzirá as emissões de gases com efeito de estufa nesses países.





Os benefícios da economia circular traduzem-se em oportunidades para os empresários. Isto cria novas oportunidades de lucro, uma oferta mais estável de materiais, uma procura crescente de certos serviços, e reforça as relações com os clientes. Uma economia circular assegura que a empresa utiliza menos matérias-primas novas e mais matérias-primas recicladas, e que o valor destas matérias-primas é maximizado ao longo de todo o seu ciclo de vida. Como resultado, um empresário incorrerá em custos de materiais relativamente mais baixos do que os custos de mão-de-obra. Com mais estabilidade, uma empresa pode fazer investimentos a longo prazo mais favoráveis e direcionados.

NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO

A economia circular oferece novos modelos de negócio e oportunidades para reter clientes. A transição da entrega do produto para os serviços, modelos de leasing e aluguer cria uma relação a longo prazo entre cliente e fornecedor, porque há mais contacto durante a vida do produto. Quando o fornecedor permanece responsável pelo produto entregue, o serviço intermédio, manutenção, reparação e boa comunicação podem resultar não só na satisfação do cliente mas também na sua fidelidade, o que garante que o cliente voltará a comprar produtos após a expiração do contrato.





No conceito de economia circular, a duração de vida de um produto deve ser o mais longa possível, assegurando que múltiplos ciclos consecutivos de reutilização direta são seguidos, facilitando a permutabilidade dos produtos e mantendo adequadamente os produtos para que possam ser utilizados durante muito tempo sem reparação. O alargamento da economia circular aos agentes económicos em geral contribuirá de forma decisiva para que se alcance a neutralidade climática até 2050 e para dissociar o crescimento económico da utilização dos recursos, garantindo igualmente a competitividade da UE a longo prazo sem deixar ninguém para trás.


Para concretizar esta ambição, a UE tem de acelerar a transição para um modelo de crescimento regenerativo e progredir no sentido de o consumo de recursos não ultrapassar os limites do planeta e, nesse intuito, envidar esforços para reduzir o impacto ecológico do consumo e duplicar a taxa de utilização de materiais circulares na próxima década.

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